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Quim Negro foi o compositor com mais sambas vetados pela ditadura

Pouco conhecido, sambista e ator era vítima de preconceito e racismo dos censores

Na historiografia da música popular brasileira, sabe-se que o compositor Taiguara foi o mais censurado na ditadura militar, com 68 canções vetadas de 1973 a 1982. Depois de um longo exílio em Londres, só voltaria a se apresentar no Brasil em 1986.

Com a recente digitalização dos documentos musicais da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, trabalho que deve ser concluído em dezembro pelo Arquivo Nacional, é possível saber que, dos compositores de samba, o mais censurado foi um nome desconhecido entre os baluartes do gênero. Joaquim Theodoro, que usava o codinome Quim Negro, enviou 108 músicas para avaliação da censura em 1971 e 1972 — entre elas, vários sambas, dos quais dez foram vetados.

As letras de Quim ora são testemunhais, contando pequenos causos do dia a dia, ora bem-humoradas, ironizando o comportamento humano; muitas são biográficas, e falam da infância ou de histórias de amor. Há também letras religiosas, que fazem alusão a temas do candomblé. O envolvimento com o cinema aparece em uma delas, “Divertimento bão”, de 1971: “Tive cisma uma vez/ escutei o gogó da ema/ achei que tinha talento/ tou colado no cinema”.

Os censores criticavam o mau português do compositor, as alusões à política da época, mas, principalmente, apresentavam justificativas subjetivas para o veto, como “letra de mau gosto” ou “sem sentido”. Na letra de “Salve a criança”, o parecer foi implacável: “É um emaranhado de palavras jogadas a esmo”.

 

— Não fazia a mínima ideia de quem ele era. Quando vi a quantidade de composições de sua autoria e as razões pelas quais várias foram vetadas, minha curiosidade se converteu subitamente em fascínio — conta o pesquisador da UFPE Stephen Bocskay, que prepara o livro “Samba e afropolítica durante a ditadura militar brasileira” e faz o levantamento neste acervo recém digitalizado do Arquivo Nacional.

Bocskay acredita que o pseudônimo “Quim Negro” tenha provocado racismo dos censores.

— Muitas composições foram vetadas pelo intenso diálogo social, político e linguístico com o universo afro-brasileiro: Quim Negro criticava a polícia, exaltava a beleza do negro brasileiro, se pronunciava sobre o candomblé e a umbanda, a macumba e a capoeira, feiticeiros, malandragem e africanos dançando na “cidade grande.” O caso de Quim Negro é idôneo para ilustrar a defesa escancarada do racismo institucional pelo Estado brasileiro.

Como O GLOBO vem mostrando em série que começou a ser publicada no último domingo, a censura durante a ditadura militar silenciou nomes como Paulinho da Viola, Candeia, Martinho da Vila, Leci Brandão e Nei Lopes.

Ator e diretor de cinema, Quim Negro (às vezes, assinava Kim Negro) participou de 18 curtas e longas-metragens entre 1970 e 80. Os filmes mais conhecidos em que atuou são “Rio Babilônia” (1982), “Os Trapalhões nas minas do Rei Salomão” (1977) e “Rainha Diaba” (1974). Fez pontas em episódios do programa de TV “Os Trapalhões” e chegou a dirigir um pequeno filme sobre si mesmo: “Um crioulo brasileiro”, de 1972.

— Nunca soube que ele era sambista — conta o professor e pesquisador de cinema João Carlos Rodrigues, autor do livro “O negro brasileiro e o cinema”, que conheceu Quim pessoalmente. — Ele vivia modestamente numa hospedaria na Praça Tiradentes, fazia pontas em filmes e fez um filme sobre si mesmo, primitivo, mas interessante.

Pouco se sabe dele: vindo de Elói Mendes, interior de Minas Gerais, para jogar futebol em Paracambi, na Baixada Fluminense, nos anos 1970, Joaquim acabou indo para o Vasco de Gama e logo ganhou pequenos papéis na TV e cinema. A música era um hobby do qual poucos sabiam. Nos anos 1990, integrou o quadro dos Trabalhadores Técnicos de Cinema. Era um tipo franzino e soturno, que levava no cordão uma pequena caveira que piscava os olhos e um pequeno pente enfiado na barba branca, contam amigos da época. Morreu em 2010, deixando parentes que não foram localizados pela reportagem.

— Conheci bem o Quim Negro, seu ativismo e qualidade artística. Encontrava-o sempre nas imediações da Lapa e da Cinelândia, mas tinha anos que não o via. Lamento profundamente o seu falecimento, em pleno ostracismo, destino recorrente dos artistas negros no Brasil — declarou o músico Spirito Santo, que conviveu com o ator e compositor.

 

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About Carlos M Jr. (Caju)

Leonino com ascendente em Sagitário. Estudo e me interesso por mediunidade, espiritualidade, astrologia, esoterismo, Umbanda, psicologia, parapsicologia, comportamento, religiões, orixás, ocultismo, oráculos, filosofia e mais uma dezenas de temas. :-)